laboratório

experimentos e reflexões para a poesia da escrita e do olhar livre 

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A fala que silencia

Em 2015 completa-se o centenário de nascimento de Roland Barthes que dedicou o pensamento à fotografia no livro "A Câmara Clara". Para Barthes, a fotografia que lhe toca é aquela que abre cicatrizes e faz silenciar!

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Em Câmara Clara, Roland Barthes se debruça sobre a magia fotográfica e a afirma como a própria contradição: é contingência, singularidade e aventura. É uma fala silenciosa. Esta seria a fotografia considerável no eidos (do grego, ideia) sob o poder do punctun (do latim, ponto), elemento capaz de atravessar o espectador e deixar sua cicatriz, As desprovidas desse elemento seriam caracterizadas pelo signo do studium, aquelas que só denotam uma cena, são de caráter objetivo. Essas podem ser belas, capazes de gritar mas nunca silenciar.


Neste post inaugural, desenvolvo esta escrita em homenagem a esse que pensou signos, foi crítico e autor literário e deixou esta obra exclusiva à fotografia. Me detenho aqui ao punctum fotográfico, capaz de abrir pontes subjetivas para encontros que vão além da visão, se estabelecem na pele, na alma. Sobre esse poder Barthes nos apresenta a curiosa definição de Kafka sobre o ponto de vista do fotógrafo:

"No fundo - ou no limite - para ver bem uma foto mais vale erguer a cabeça ou fechar os olhos. "A condição prévia para a imagem é a visão", dizia Janouche a Kafka e Kafka sorria e respondia: 'Fotografam-se coisas para expulsá-las do espírito. Minhas histórias são uma maneira de fechar os olhos'.

(...)

A Fotografia deve ser silenciosa (há fotos tonitruantes, não gosto delas): não se trata de uma questão de "discrição", mas de música. A subjetividade absoluta só é atingida em um estado, um esforço de silêncio (fechar os olhos é fazer a imagem falar no silêncio). A foto me toca se a retiro do seu blábláblá costumeiro: "Tecnica", "Realidade", "Reportagem", "Arte" etc.: nada a dizer, fechar os olhos, deixar o detalhe remontar sozinho à consciência afetiva."

Aqui enquanto fotógrafa me encontro. Crio imagens para extravasar emoções que me sufocam ou me realizam. E quando revelada, livre estou para outros sentimentos caros da existência. Ao considerar a fotografia como contingência, e claro que Barthes se refere à analógica, , pode-se dizer em risco, risco no duplo sentido, no processo físico-químico de riscar com a luz, como também o risco de operar a camera obscura. Para Barthes a fotografia que silencia é essa que o operador muito mais que um operador a encarou como risco, se colocou, desenhou com a luz para além de suas belezas e feridas. Desse risco emerge a criação, a câmara agora é clara.

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